• Geração Literária

Paralisia!

Os olhos acordam na penumbra do quarto. O relógio grita a hora da madrugada. Sinto que há algo errado.



Não posso me mexer. O coração acelera e a respiração falha. Puxo o ar, mas ele teima em não ser suficiente. Há algo que o impede. Forço a vista e lá está ele sobre o peito. É pequeno e revestido de pelos escuros. A bocarra escancarada, munida de presas afiadas, causa repulsa. Os malditos braços não se mexem. Quero gritar e sair correndo, porém ele me oprime. SOCORRO! Penso em desespero.


Meus olhos imploram para o vulto negro em pé na porta do quarto. A ajuda não vem. Ele se diverte vendo-me cativa. Sombras percorrem o quarto em vigília. Ouço suas vozes. “Vamos levá-la”. Lágrimas escorrem pela face. Não as sinto, mas sei que estão lá. O vulto negro responde. “Ainda não”. O bicho, feliz, abocanha minha mão. Sinto que vou morrer. Olho para o teto em prece. Já não ouço nada. O fim está certo.


Tento o corpo novamente. Um minuto se foi. Dois está passando e o ar é teimoso. Três minutos. E se o cérebro parar? Grito em silêncio e nada acontece. O bicho investe novamente. Sua boca está no meio do braço. Agora o vulto negro, alto e imponente, se mexe entusiasmado. “Vai, vai, vai”. Gargalhadas enchem o quarto. Alguém me ajude! Sinto o ar entrando novamente. Vejo a carranca do bicho próximo à minha face. Seus olhos me incriminam.


Grito agora e posso me mexer. Eles se foram. Exatos cinco minutos se passaram. Os médicos dizem que é normal. “Você não vai morrer”. A paralisia do sono é mais comum do que pensa. É apenas seu cérebro acordando antes do corpo. As sombras são seus sonhos mais profundos. Fase REM.


Entretanto não explicam as marcas no braço. São arranhões profundos. Eles estão me espreitando. Sinto-os no vazio da noite. Tento não dormir, mas perco a batalha. Essa noite ele começou a engolir minha perna. O vulto negro tem se aproximado. Tenho medo de ver se seu rosto e me perder nele.


Por Amanda Kraft @amandakraft2015

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo