• Geração Literária

O fim da luz!

Havia uma luz. Bom, pelo menos é o que lembro. Sim, lembro de seguir a iluminação e entrar em uma caverna escura, não fazia sentido, de onde viera a luz?



Embora não fume, tenho sempre um isqueiro comigo, tudo por conta de uma mágica boba que aprendi, faço o truque criando uma labareda para impressionar os outros, apesar de nunca ter obtido êxito, apenas uns pelos queimados em meu braço esquerdo.


Não sei o que me arrastou para aquela caverna, talvez algum desejo inconsciente de autodestruição. Talvez tenha me perdido, não no sentido de fora do caminho, algo mais profundo como rumo de vida.


O que este local obscuro representa?


Ouço ruídos peculiares aos mamíferos alados, talvez a pequena chama em minha mão os incomode. Voam com seu som estridente em minha direção, tento me proteger, entretanto não é preciso, eles não encostam em mim, seguem seu caminho para a abertura da caverna. Com um rápido olhar, vejo que não há mais nada por ali, apenas paredes de pedra. A luz de onde vim não existe mais.


Assim, minha única opção é seguir em frente até uma ponte de madeira podre, não parece nem um pouco segura, mesmo assim é por onde devo ir. Uma golfada de vento me atinge e faz a estrutura tremer furiosamente, consigo me agarrar às cordas de sustentação, elas estralam suavemente e parecem se desfazer aos poucos.


Sigo adiante e observo um ser bípede. Tem formato humano, porém, sei que não o é. Suas pernas são musculosas e de cada joelho saem duas panturrilhas. Observo mais atentamente e seu tronco é esburacado, pelo menos cinco perfurações são visíveis na penumbra. Também tem um braço menor do que o outro, embora ambos cheguem quase ao chão e tenham a grossura de minhas coxas. Sua cabeça tem a forma de “T”, é um formato suave e demorei um pouco para entendê-lo. Não existem cabelos ou pelos em seu corpo e sua coloração parece de um vermelho suave. Andei com meu olhar fixo na criatura, para poder desviar sem chamar atenção, foi quando reparei que não havia rosto algum. Ela permaneceu estática. Talvez um ser fossilizado de outra dimensão, não me importava, poderia seguir adiante.


Um tremor de terra me deixou de joelhos, algumas paredes se esfarelaram, embora a estrutura geral da caverna tenha aguentado bem. O que as profundezes deste lugar profano ainda me reservavam? O que estou fazendo aqui? Indaguei aos cantos escuros. Não obtive respostas, o silencio mórbido me enlouquecia.


Na próxima abertura o cheiro de morte finalmente surgiu e invadiu minhas narinas. O odor fétido revirou meu estômago e lutei bravamente para manter meu jantar dentro de mim. A pouca iluminação de meu isqueiro revelou encravos na parede, eram figuras rudimentares de criaturas inimagináveis. Uma delas parecia familiar, tinha traços de um ser humano. Ouvi o som dos morcegos a distância, pareciam muitos agora, o suficiente para acelerar meu coração e meu passo à procura da saída. Foi quando tropecei.


Minha queda foi suave, atingi uma superfície molenga e me acomodei por alguns instantes. O cansaço se apossara completamente de mim. Senti um gentil movimento em minha mão, então, reacendi o isqueiro. Havia um pequeno verme branco andando em meu dedo anelar e, ao meu redor, inúmeros corpos em decomposição. A grande maioria era humana. O horror da visão retorceu meu rosto e paralisou meus movimentos. Não sei quanto tempo se passou até que conseguisse expirar novamente, encurvando meu tronco para frente e fechando os olhos com força.


Talvez tudo fosse apenas um pesadelo.


Abro os olhos e os corpos ainda estavam lá.


Havia uma luz. Bom, pelo menos é o que lembro. Corri em sua direção, poderia sair daquele lugar sinistro. O som dos morcegos agora era forte e se aproximava cada vez mais rápido, eles me ultrapassaram com ferocidade suficiente para me derrubar e pararam onde a luz estava, consumindo-a. Estou de volta à escuridão, acendo meu isqueiro e vejo uma cabeça, em forma de “T”, sem rosto à minha frente. Não há expressão alguma, não há som, não há perversidade, apenas uma mão forte envolvendo o meu pescoço e apagando todas as luzes.


Por Mauro Matos.

@mauromatosbooks

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